Para a profissional Denise Barretto, a curadoria de obras de arte vai além da estética e se torna elemento central de ambientes com identidade, memória e significado

A presença da arte nos projetos de interiores deixou de ser um complemento para assumir um papel protagonista. Mais do que integrar os interiores dos ambientes, obras de arte são capazes de conduzir narrativas, entregar histórias e orientar decisões de projeto desde o início.
Para a arquiteta Denise Barretto, à frente de seu escritório homônimo, esse processo se inicia de diferentes formas. “Há situações em que a obra de arte direciona o projeto e há aquelas em que ela entra para complementar o ambiente. Ambas são possíveis”, alega.
Seja como ponto de partida ou elemento de composição, a arte tem o poder de transformar espaços em extensões da identidade de seus moradores, dando origem a ambientes com profundidade, repertório e pertencimento.
A seguir, a profissional compartilha algumas ideias para nortear a escolha de obras de arte para projetos de arquitetura:
Curadoria personalizada entre galerias e garimpos

O processo de curadoria começa com a busca por peças que dialoguem com o morador e o projeto. Nesse percurso, a profissional esclarece que diferentes fontes entram em cena, desde grandes galerias até espaços mais alternativos.
“Geralmente, gosto de transitar entre endereços de garimpo ou, na maioria das vezes, em galerias. Em especial, as pequenas são sempre muito interessantes”, opina. Mais do que a origem da obra, o diferencial está no processo colaborativo: “É uma seleção que gostamos muito de fazer junto com o cliente”, complementa Denise.
A história do morador como fio condutor


Entre os critérios de escolha, a narrativa pessoal ocupa lugar central. Cada obra precisa fazer sentido dentro do contexto de quem habita o espaço. “Sem dúvida, o ponto de partida é a história do cliente. Qual a relação dele com a obra de arte?”, destaca a arquiteta.
Essa abordagem reforça o papel da arte como elemento que transcende a estética: “Ela vai muito além, valoriza a história dos moradores e as memórias afetivas daquela casa”.
Integração total com o projeto

Ao contrário do que se imagina, a arte não entra apenas no momento final da decoração. Em muitos casos, ela já está presente nas primeiras etapas do projeto. “Em geral, as obras de arte já estão presentes nos primeiros 3Ds que a gente apresenta para os clientes”, revela Denise.
Essa integração garante coerência entre todos os elementos do ambiente. “A obra tem que conversar com o propósito do projeto. Ela faz parte desse contexto e dificilmente entra depois de tudo pronto”.
Destaque ou silêncio: o papel da obra no ambiente

Nem toda obra precisa ser protagonista. Essa escolha faz parte da estratégia da curadoria. “Às vezes uma obra nasce com o intuito de ser um destaque do projeto, ou às vezes ela é algo mais silencioso”, explica.
Quando a intenção é evidenciar a peça, recursos como iluminação e posicionamento entram em cena. De acordo com a arquiteta, obras de nomes consagrados, por exemplo, podem assumir o protagonismo e chamar atenção, exigindo um tratamento específico para a valorização.
Escala, proporção e harmonia

A relação entre a obra e o espaço é determinante para o sucesso da composição. Escala e proporção são fatores essenciais para garantir equilíbrio visual. “Eu não posso ter um sofá de quatro, cinco metros e ter uma arte de pequeno porte. É preciso trabalhar de forma equilibrada”, pontua Denise.
A escolha envolve ainda decisões como trabalhar com uma peça única ou criar composições, como gallery walls, sempre buscando uma leitura harmônica do conjunto.
Onde posicionar e como preservar

A definição do local ideal para a obra leva em conta tanto aspectos estéticos quanto técnicos. Ambientes sociais costumam ser os preferidos, enquanto áreas com incidência direta de sol exigem atenção redobrada. “O sol que incide diretamente em uma pintura pode mudar a aparência ou, pior, pode estragar a obra”, alerta a arquiteta.
Essa preocupação se estende à iluminação, que precisa equilibrar valorização e conservação. “A iluminação tem que ser bem cuidadosa e analisar o calor para que não seja prejudicial à obra de arte”.
Para a luz artificial que incide diretamente nas obras, a arquiteta recomenda o posicionamento a um ângulo de 30 graus da obra, devendo-se optar por luzes de LED com alto Índice de Reprodução de Cor (IRC) – superior a 90, preferencialmente –, pois não emite raios ultravioletas ou infravermelhos e assegura que as cores sejam vistas com bastante precisão.
Quanto à temperatura de cor, Denise aponta que este fator altera a percepção das cores da obra. “Luzes com temperaturas mais altas, como 5.000K, destacam tons frios, à medida que temperaturas mais baixas, como 3.000K, favorecem tons quentes”, afirma.
Identidade, memória e significado


No fim, a arte é o elemento que transforma um espaço funcional em um ambiente com alma. “A obra de arte ajuda muito a trazer identidade e personalidade para um espaço, como revela uma memória afetiva”, declara Denise.
Sem ela, o ambiente perde força narrativa: “Você imagina uma sala sem nada? Que história ela vai contar?”. Ao integrar estética, técnica e emoção, a curadoria de obras de arte se consolida como um dos pilares dos projetos contemporâneos, capaz de traduzir, em cada detalhe, o DNA de quem habita o espaço.
Sobre Denise Barretto Arquitetura
Denise Barretto formou-se em 1985 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie, com pós-graduação em Paisagismo pela FAU-USP. O atelier boutique que leva seu nome foi fundado em 97, elabora projetos em diversos segmentos, dentro de uma linha contemporânea. Originalidade é o compromisso que orienta os projetos, seu grande diferencial: a integração entre o espaço interno e paisagismo.
Se inspire nos projetos das arquitetas Denise Barretto e dos profissionais cadastrados no Viva Decora Pro.
