Qual o papel da base neutra nos projetos de arquitetura de interiores

Para a arquiteta Isabella Nalon, o conceito pode ser compreendido como o pano de fundo que permite a aplicação das demais cores que constituem o ambiente

O tom off white, combinado com os efeitos da parede onde está o sofá da sala, foi a estratégia

de base neutra eleita pela arquiteta Isabella Nalon para que o tapete e os móveis de madeira

pudessem sobressair na formatação contemporânea deste living | Foto: Júlia Herman

Quem acompanha o universo da arquitetura e decoração já deve ter notado a recorrência da expressão base neutra nos projetos. Mesmo não sendo especialista, não é difícil compreender que a referência a essa paleta atua como apoio para a constituição do ambiente.

“Podemos definir o conceito como um pano de fundo para a aplicação das demais cores que estarão representadas por meio do mobiliário e outros recursos como itens decorativos e obras de arte. O objetivo é justamente o de permitir que essa composição receba o destaque pretendido desde a execução do projeto”, explica a arquiteta Isabella Nalon.

Ainda de acordo com ela, a base neutra não se restringe à designação de cores, mas também agrega a especificação de materiais naturais, o emprego de texturas e um design clean e proporcional às medidas do espaço. Entenda mais sobre esse universo:

Cores

Nesta cozinha, Isabella Nalon demonstra que a base neutra também pode ser construída pela combinação entre diferentes materiais

e tonalidades. O branco dos armários, a pedra clara, a madeira e os detalhes escuros criam uma composição equilibrada e atemporal,

deixando espaço para que elementos naturais e objetos decorativos acrescentem cor e personalidade ao ambiente | Foto: Julia Herman

Conforme pontua a profissional, nem sempre a cor predominante de um ambiente tem a proposta de chamar a atenção. Pelo contrário: ao passar ‘despercebida’, ela atua como o elo capaz de conectar materiais, valorizar o mobiliário e criar a atmosfera que sustenta essa conciliação. É esse papel silencioso que caracteriza a chamada base neutra.

Durante décadas, branco, bege e cinza se consolidaram como as escolhas que eliminam o risco de errar. De fato, a baixa saturação cromática que essas nuances entregam ao ambiente corrobora com a busca de um pano de fundo.

Mas esse não é o único motivo para eleger essas cores. Segundo ela, essa preferência foi construída porque oferecem segurança visual, são fáceis de combinar, transmitem equilíbrio, são atemporais e dialogam com diferentes estilos arquitetônicos.

“Entretanto, limitar a neutralidade apenas a essas cores significa ignorar outras possibilidades capazes de exercer exatamente a mesma função. A neutralidade não está ligada à ausência de cor, mas à sua capacidade de dialogar com diferentes elementos”, comenta a profissional que é super a favor de buscar novas possibilidades.

A neutralidade está no comportamento da cor

Saindo do tradicional, neste living a arquiteta Isabella Nalon trabalhou com o

branco areia executado com efeito velvet | Foto: Rafael Renzo

Para a arquiteta, uma base neutra deve proporcionar unidade, organizar visualmente o ambiente e permitir que mobiliário, obras de arte, tecidos e objetos protagonizem sem comprometer a harmonia. No seu entendimento, a arquitetura nos dias de hoje exalta o acolhimento, identidade e emoção. “Por isso, não faz sentido pensar em ambientes completamente apagados e sem personalidade”, analisa.

Fugindo do trivial

Com uma visão atualizada sobre a imparcialidade que esse fundo representa, Isabella afirma que os novos horizontes da base neutra abraçam possibilidades diferentes do trivial.

Com esse pensamento ela apresentou uma proposta cromática ousada no ambiente “A Poética do Ritmo” que assinou para a edição 2026 da CASACOR. Ao invés de recorrer aos neutros convencionais, ela escolheu o rose terroso intitulado como Café Místico, da Coral, para recobrir paredes e teto.

O ambiente “A Poética do Ritmo”, assinado pela arquiteta Isabella Nalon para a CASACOR São

Paulo 2026, demonstra como o rose terroso estrutura o conjunto sem disputar com o

protagonismo das obras de arte, mobiliário e objetos decorativos| Fotos: JP Image

A escolha nasceu da própria compreensão do espaço, pensado para despertar sensibilidade, conexão, memória afetiva, contemplação e bem-estar. Para alcançar essa atmosfera, a arquiteta buscava uma cor que transmitisse acolhimento, mas que também mantivesse elegância e atemporalidade. “O rose terroso surgiu como uma alternativa, pois possui uma conexão muito forte com elementos da natureza como argila e terra”, comenta.

Ao envolver paredes e teto com a mesma tonalidade, ela alcançou uma espécie de casulo arquitetônico que acolhe o usuário e funciona como pano de fundo para livros, obras de arte, objetos afetivos e mobiliário.

A combinação entre o rose terroso, o sofá verde-musgo, a madeira natural e as fibras

evidenciam a proposta da arquiteta Isabella Nalon de construir uma neutralidade inspirada

na natureza e não na ausência de cor | Foto: JP Image

Ideia que se adapta a diferentes projetos

Embora “A Poética do Ritmo” sintetize esse novo olhar sobre a base neutra, Isabella destaca que a proposta não está vinculada a uma cor específica. O rose terroso representa uma das possibilidades dentro de um repertório muito mais amplo, formado por tonalidades capazes de formar os ambientes sem abrir mão da personalidade.

Entre elas, a arquiteta cita variações como o verde sálvia e oliva suave, terracotas claros, tons de areia mais pigmentados, marrons inspirados na madeira natural e até alguns azuis acinzentados. Em comum, todas apresentam equilíbrio cromático suficiente para dialogar com diferentes materiais e estilos de decoração.

“Vejo um movimento cada vez mais forte em direção aos chamados neutros afetivos. As pessoas estão buscando ambientes mais humanos, mais gostosos e menos impessoais. Não se trata apenas de uma tendência estética, mas de uma mudança na forma como queremos viver os espaços”, ressalta a arquiteta.

Materialidade reforça o conceito

Em sua visão, a cor nunca atua sozinha e sua relação com os materiais é determinante para construir uma base neutra duradoura. Madeira natural, pedra, linho, algodão, palha, cerâmicas artesanais e revestimentos com aspecto manual enriquecem o arranjo ao acrescentar textura, profundidade e pequenas imperfeições que aproximam a arquitetura da natureza.

“Quando a base é bem construída, ela continua permitindo inúmeras transformações ao longo da vida do ambiente. Na verdade, uma base neutra colorida, oportunamente, oferece mais possibilidades que um fundo completamente branco, uma vez que adiciona uma camada de personalidade e acolhimento sobre a qual diferentes contextos podem acontecer”, conclui.

Sobre a arquiteta Isabella Nalon

Com uma carreira sólida e experiência proveniente de mais de 30 anos de trabalho, Isabella Nalon percorreu uma trajetória de muitos estudos e pesquisas na área de Arquitetura e Decoração. Iniciou sua carreira atuando como arquiteta na Alemanha e, em 1998, inaugurou seu escritório em São Paulo. Se especializou em projetos arquitetônicos residenciais, comerciais e de decoração de interiores. Possui uma visão plural e ampla de diferentes culturas e públicos, o que se tornou um diferencial em seu percurso profissional. Cada projeto desenvolvido pelo escritório é único, com muita harmonia, elegância e criatividade. Frequentemente, tem obras reconhecidas e publicadas por renomados portais e revistas de arquitetura e decoração, consolidando o escritório na lista dos mais importantes da capital paulista.

Instagram: @isabellanalon

Site: www.isabellanalon.com

Youtube: Isabella Nalon

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