Você já parou para refletir se onde você mora hoje é um lugar pensado apenas para agora ou mesmo se é um espaço capaz de acompanhar as próximas fases da sua vida? As arquitetas Danielle Dantas e Paula Passos explicam o conceito de forever home, ou ‘casa para sempre’, casas projetadas para envelhecer bem, se adaptar às transformações da rotina e continuar fazendo sentido mesmo quando a vida muda.
Onde você mora atualmente é o local onde passará a vida toda? Onde seus filhos vão crescer, os futuros netos vão fazer a noite do pijama ou onde você pretende envelhecer ao lado da pessoa amada? Talvez seja difícil responder essas perguntas agora, mas em um cenário onde tendências vêm e vão rapidamente, cresce o desejo por lares que resistam ao tempo e se adaptem às diferentes fases da vida, sem precisar daquela mudança de endereço.

Essa forma de pensar se aproxima do conceito de forever home, expressão bastante difundida na arquitetura internacional para definir casas preparadas para acompanhar rotina, idade, prioridades e até identidade. Para as arquitetas Danielle Dantas e Paula Passos, à frente da Dantas & Passos Arquitetura, esse ‘para sempre’ se refere a continuar fazendo sentido a todo momento.
“Uma casa para sempre é sobre um lar onde a vida pode mudar sem que você se sinta deslocado dentro dela, mesmo quando você já não é exatamente a mesma pessoa, a casa ainda te reconhece”, declaram as profissionais.

Popularizado no mercado imobiliário dos Estados Unidos e do Reino Unido, esse conceito de ‘forever home’ se refere a projetar espaços capazes de aceitar transformações com naturalidade. Na prática, segundo as arquitetas da Dantas & Passos Arquitetura, isso significa criar ambientes flexíveis, capazes de assumir novas funções sem exigir grandes intervenções.
“É pensar em ambientes mutáveis, onde um quarto pode se tornar escritório, um espaço de apoio pode virar brinquedoteca e a sala pode ganhar um novo significado. Mas para isso, a planta do imóvel precisa permitir ajustes, permitindo mudanças”, resume a dupla.
Essa flexibilidade, ou mesmo o potencial da planta, conectada com a identidade de quem mora ali, é o que resulta a longa permanência no local mesmo quando a vida muda, sem gerar estranhamento.
“Do ponto de vista técnico, essa lógica se traduz em circulações bem resolvidas, relações claras entre os ambientes e soluções que favorecem o uso cotidiano. Uma casa bonita pode encantar no primeiro olhar, mas é a funcionalidade que sustenta a satisfação ao longo dos anos”, explica Paula Passos.
Já no ponto de vista estético, a arquiteta acrescenta priorizar materiais atemporais e paletas equilibradas, porque a ideia é criar casas que envelheçam bem visualmente e que exijam menos mudanças radicais com o passar dos anos.
Ao contrário do que se imagina, não existe uma fase da vida que seja ideal para investir nesta casa definitiva, o que realmente existe é o momento com grande nível de clareza sobre a própria rotina. Quando os hábitos já estão consolidados e as prioridades bem definidas, fica mais fácil projetar espaços que respondam à vida real e não a expectativas passageiras.

“Muitas vezes, essa decisão também vem acompanhada de experiências anteriores, já que morar em diferentes lugares ajuda a entender o que funciona, o que incomoda e o que realmente faz diferença no dia a dia”, lembra Danielle Dantas.
Esse amadurecimento traz um olhar mais atento para o longo prazo. Na arquitetura, a profissional cita manutenção, durabilidade e conforto que durem anos e tragam uma sensação boa de viver bem.
“É também um movimento emocional porque surge a vontade de ter um lugar que represente quem se é de verdade, sem máscaras e sem modismos. Aqueles pequenos desconfortos começam a incomodar mais e a casa deixa de ser só uma parte e se torna um todo dentro da rotina que se deseja construir”, pontua a profissional.

Quando o projeto envolve mais de uma pessoa, as decisões estruturais ganham uma importância ainda maior, pois um imóvel familiar precisa ser capaz de absorver mudanças constantes, acomodando diferentes rotinas, horários, ainda mais fases da vida e necessidades que inevitavelmente surgem com o tempo. Na visão das arquitetas, algumas condutas fazem diferença para o forever home familiar:
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– Áreas sociais, íntimas e de serviço devem ter relações claras, evitando cruzamentos desconfortáveis e facilitando o uso simultâneo dos espaços.
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– Privacidade e acústica são essenciais para preservar a convivência saudável.
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– Armários, closets e despensas bem planejados fazem diferença direta na organização e qualidade de vida.
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– A infraestrutura também merece atenção especial desde o início com uma previsão para climatização, automação, sistemas de dados e equipamentos futuros, assim evita reformas desnecessárias.
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– Iluminação natural, ventilação cruzada e controle de insolação devem entrar na equação também.
Mas, acima de tudo, uma casa familiar precisa ser resiliente. “Uma casa de família precisa aguentar barulho, bagunça, silêncio, cansaço, rotinas diferentes e continuar sendo casa. Sem os cuidados necessários, ela pode virar um território de afetos ou de conflitos”, alertam Danielle e Paula.
Já quando a casa é pensada para apenas uma pessoa, a liberdade criativa costuma ser maior e o projeto assume um caráter mais autoral, refletindo diretamente a personalidade e o estilo de vida do morador.
“Geralmente temos espaços mais integrados, soluções menos compartimentadas e escolhas mais ousadas. Ainda assim, a base de uma casa duradoura continua sendo a mesma: flexibilidade”, diz Paula.
Porém, o principal risco em projetos muito personalizados é limitar demais os usos possíveis do espaço. Uma casa pensada apenas para um momento específico pode se tornar rígida quando mudanças acontecem com frequência maior do que se imagina.
Mesmo em projetos mais livres, vale manter ambientes capazes de assumir novas funções e evitar soluções que engessem completamente a planta. “Morar sozinho talvez permita ousar mais, mas uma casa para a vida toda ainda precisa aceitar as diferentes versões que possam acontecer de quem mora ali”, acrescenta.

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